sábado, 30 de novembro de 2013

Receita de arco-íris




Junte o fim de um temporal

(guarde seus trovões e raios

debaixo da cama)

com três raios de sol.

Misture bem na peneira do céu,

como se misturam sal e açúcar.

Deixe que as sete cores façam

o mais belo dos caminhos,

e então, na ponta dos pés

faça uma pirueta, uma careta,

e receba os aplausos.


Roseana Murray

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Separação





Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.


Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.


Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!


Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.


Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.


No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.


Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.


O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.


Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?


Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.

No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


( Affonso Romano de Sant’Anna )
*

domingo, 3 de novembro de 2013

Gosto quando te calas




Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.




Pablo Neruda

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Que seja doce...



Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce.
Quando há sol, e esse sol bate  na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo;
repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.


(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

descobre, desvenda


"Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás.
 Que não te baste nunca uma aparência do real."







Caio Fernando Abreu
fragmento de "Dodecaedro Sétimo fragmento da décima terceira voz"

sábado, 26 de outubro de 2013

quem me feriu perdoe-me




Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei - 
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos, 
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido 
demora um pouco a latir, 
a festejar seu dono
- ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar 
Por que razão me bates? 
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas 
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.


 

 
 
 
A cólera divina


Adélia Prado, do livro "O Pelicano",
[em Poesia Reunida], Rio de Janeiro: Editora Siciliano, 1991, p. 338.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sou: estou e canto.



Sou: estou e canto.
Água de remanso
Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.

Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.

Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer.

Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.

É ter o gosto da vida,
amar o festivo, o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranquilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.





  Thiago de Mello, em "Faz escuro mas eu canto"

Vem navegar na minha vida





Vem navegar na minha vida
Faça de conta que meu corpo é um rio,
Faça de conta que os meus olhos são a correnteza,
Faça de conta que meus braços são peixes
Faça de conta que você é um barco
E que a natureza do barco é navegar.
E então navegue, sem pensar,
Sem temer as cachoeiras da minha mente,
Sem temer as correntezas, as profundidades.
Me farei água clara e leve.
Para que você me corte lenta, segura,
Até mergulharmos juntos no mar
Que é nosso porto.
 


Caio Fernando Abreu
poema' escrito em carta a Vera Antoun 
(Londres, 09/01/74).

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

chuva



"Quero morar numa cidade onde se sonha com chuva. Num mundo onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos."
                                                                                                    

Mia Couto
livro "Antes de Nascer o Mundo"

sábado, 14 de setembro de 2013

Ilusões





Há ilusões perdidas mas tão lindas que a gente as vê partir como esses balõezinhos de cor que nos escapam das mãos e desaparecem no céu...


Mário Quintana
Para viver com poesia

domingo, 18 de agosto de 2013

alma intensa

 
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!"
 
Florbela Espanca

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Como foi produzido - Private Acts, de Acey Harper


[Private Acts] THE ACROBAT SUBLIME BTS Lauren Herley from Private Acts on
[Private Acts] THE ACROBAT SUBLIME BTS Morgaine Rosenthal from Private Acts on Vimeo.
Vimeo.

http://vimeo.com/33308716



A admiração pela obra aumenta, quando se verifica o imenso trabalho de produção de cada imagem do livro (Privat Acts) The acrobat sublime, de Acey Harper.



sábado, 3 de agosto de 2013

Acey Harper - Uma obra de poesia visual

No Livro (Private Acts) The acrobat sublime, o fotógrafo Acey Harper lança um trabalho brilhante.
Uma coleção ousada de retratos  de acrobatas e trapezistas talentosos, mostram imagens sedutoras, misteriosas, explosivas... Aplausos a Acey Harper.





















Fonte:
Acey Harper
Hipeness

sexta-feira, 26 de julho de 2013

decifra-me


Sou o que sou quando não sou. Sou o espelho onde os outros em mim se contemplam. Pensas que não passo de um pássaro canoro embora eu seja uma esfinge. E porque não me decifras eu te devoro. 
 
 
Lêdo Ivo

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Segunda-feira



O pior da segunda-feira é que a gente sempre chega atrasado: "Meu Deus! como é que eu fui perder a primeira feira?!."
 
 
Mário Quintana

sábado, 20 de julho de 2013





O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios,
 tão indispensável como a poesia.




Anaïs Nin

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Father and Son - Cat Stevens -


O amor entre pai e filho é essencial. Cultivar esta relação desde SEMPRE, este é o segredo! Se amor é entrega e é conquista, homens, não deixem que esta oportunidade escape por entre seus dedos, porque os filhos crescem com uma urgência irritante... 
E um dia quem sabe, você se sentará com seu filho e dirá coisas que, somente um pai que se fez presente uma vida inteira poderá dizer...
Minha reverência aos homens que assumem com orgulho o seu papel de PAI.


sábado, 29 de junho de 2013

RoboIME participa da RoboCup2013


O RoboCup2013 visa acelerar o processo de desenvolvimento em robótica,
robôs de resgate, robôs de música, robôs de futebol... Com a participação de mais de 2500 pessoa de 40 países, apenas duas equipes do Brasil foram para Eindhoven. O Instituto Militar de Engenharia - IME representado pela Equipe RoboIME,  teve a oportunidade de aprender, compartilhar e integrar com outras equipes. 









                                                    

sexta-feira, 21 de junho de 2013

fim do outono

 

 
Que me importa saber que está no fim o outono,
se vejo toda em flor afora a minha estrada?

 
 
 

domingo, 16 de junho de 2013

Lenine e Ivan Lins - Se acontecer





Se acontecer
De te perder
Desencontrar

Não posso crer
Fazer chover
Talvez nublar

Tô pro que der
Se é com você
Medo não há

E o que vier
Vim pra viver
Topo encarar

Se me perder
E acontecer
De te encontrar

Faço chover
Molha você
Inunda o olhar

Vim pra viver
E o que vier
Medo não há

Se é com você
Tô pro que der
Só pra te dar

Rumo pra teus pés
Colo pros teus ais
Dedo pros anéis
Paz nos temporais
E uma vida inteira
Pra te convencer
A me levar


Fonte: http://letras.mus.br/ivan-lins/930791/

terça-feira, 21 de maio de 2013

Que tal um cafezinho?



Belíssimo o trabalho do artista japonês Kazuki Yamamoto. O barista de 26 anos cria desenhos em três dimensões com espuma de leite.
Além das esculturas em 3D, Yamamoto também desenvolve um incrível trabalho com desenhos planos em xícaras de café. A temática é sempre variada com reprodução de video game e mangás, passando por personagens da Disney e chegando até a reprodução de personalidades.








Fonte:UOL

sábado, 18 de maio de 2013

é poder





"A renúncia é a libertação. Não querer é poder." 




Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

segunda-feira, 13 de maio de 2013

filhos




"A gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres." 





Clarice Lispector

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ai daqueles


 

ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga
 
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

 

 Paulo Leminski
 "Distraído Venceremos" - 1987

sábado, 4 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Virar de página





O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.



Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

terça-feira, 16 de abril de 2013

as flores



 
as flores
são mesmo
umas ingratas
a gente as colhe
depois elas morrem
sem mais nem menos
como se entre nós
nunca tivesse
havido vênus
 

 
 
Paulo Leminski
"Caprichos e relaxos" - 1983

sexta-feira, 29 de março de 2013

geografia




Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.




Roseana Murray
in No Cais do Primeiro Amor

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...