domingo, 16 de novembro de 2014

E o destino quis...



Nascemos em poemas diversos
destino quis que a gente se achasse 
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase

rima à primeira vista nos vimos
trocamos nossos sinônimos
olhares não mais anônimos

Nesta altura da leitura
nas mesmas pistas
mistas a minha a tua a nossa linha



Paulo Leminski
Caprichos e relaxos

sábado, 15 de novembro de 2014

Vê bem onde pises


Eu tão isósceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão

teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pises
pode ser meu coração


Paulo Lemisnski

domingo, 12 de outubro de 2014

Amo-te Sem Saber Como


Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Para não Deixar de Amar-te







 Nunca Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se me esqueceres





Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.




Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
Se Me Esqueceres

domingo, 14 de setembro de 2014

Nas profundezas...



 Nas profundezas de minhas paixões sinceras,
Onde não existe o ecoar das palavras,
Mora a minha força mais bruta,
Cada vez que me abala a dúvida,
Com os poros em descompasso,
Eu sei que ela esta viva.
Devo dizer que estou livre apenas onde não há palavras.
Devo dizer que aperto, eu mesma, minhas amarras,
Cada vez que explico o que dizem os meus olhos,
Cada vez que corro para longe de mim,
Cada vez que falam mais alto os contratos.
E eu sou uma selva,
Sou a mesma mata serena
Que amedronta ao cantar da lua,
Sou uma deusa plena que tem medo de ser nua.
Estou procurando velas para não estar sem trilha
E apago com paixão velas e brasas,
Para não deixar de ser selva,
Nunca.



Aline Binns

domingo, 7 de setembro de 2014

Fortifiquei com lágrimas


Enchi a mão com a água das lágrimas,
Não para bebê-las ou para lavar com água derramada os olhos
Reguei a terra dos meus pés,
Fortifiquei com lágrimas que não quero derramar nunca mais,
As raízes, meu saber e meu sentir.



Raizes
Aline Binns

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Não quero muitas e nem poucas palavras




Não quero muitas
E nem poucas palavras.
Não quero definições
E nem quero sentenças.
Quero apenas caminhar com sede
E ouvir-me silenciosamente,
Enquanto atravesso essa vida em tumulto,
Esse alarde,
Essa insana busca de tudo,
Para o nada que preciso.


Aline Binns

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Lições

 
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?





© MIA COUTO
In Idades Cidades Divindades, 2007

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Eu sou...

O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.



Jorge Luis Borges

terça-feira, 1 de julho de 2014

Sejamos alegres




Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou — apesar de tudo oh apesar de tudo — estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina... Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio.



Clarice Lispector, in 'Água Viva'

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Felicidade


Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais
Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem
Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem
Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva
Dançar na chuva quando a chuva vem



terça-feira, 24 de junho de 2014

Tear de sonhos


 
Com fios de pensamento
se tece o mundo
se costuram pedaços
rasgados de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.

 
 
 
Roseana Murray
in Residência no Ar

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Erra uma vez




nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez




Leminski

domingo, 22 de junho de 2014

Louca história




"... E se a paixão há de ser provisória, que seja linda e louca a nossa história"





Bruna Lombardi

domingo, 15 de junho de 2014

Sou as minhas atitudes



"Sou as minhas atitudes, os meus sentimentos, as minhas idéias...             O que realmente faz valer a pena estar vivo, não há filmadora ou máquina fotográfica que registre...
Surpresas, gargalhadas, lágrimas, enfim, o que eu sinto, quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles..."







Clarice Lispector

quinta-feira, 12 de junho de 2014

É só começar

 
ninguém precisa
ter talento
pra transformar
caso em descaso

já o contrário
é que é o caso
se você não tem
lamento

é preciso ser forte
é preciso ser fraco
é preciso ganhar e perder
o juízo

sai dessa pose
pára de pensar
no prejuízo
e segue em frente
tem hora pra se chegar
tem hora pra se afastar
não sabe como?
é só começar


  

Alice Ruiz

terça-feira, 10 de junho de 2014

Erótica é a alma



"Não foi à toa que Adélia Prado disse que 'erótica é a alma'. Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo. O corpo só é erótico pelos mundos que andam nele. A erótica não caminha segundo as direções da carne. Ela vive nos interstícios das palavras. Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma."



 





- Rubem Alves

domingo, 8 de junho de 2014

De ausências e distâncias te construo



De ausências e distâncias te construo
amigo
amado.
E além da forma
nem mão
nem fogo:
meu ser ausente do que sou
e do que tenho, alheio.
Na dimensão exata de teu corpo
cabe meu ser
cabe meu voo mais remoto
cabem limites, transcendências.

Na dimensão do corpo que tu tens
e que eu não toco
cabe o verso torturado
e um espesso labirinto de vontades.




Breve memória
(13 de outubro de 1969)

- Caio Fernando Abreu, em "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu".  Editora Record, 2012.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Alguma coisa em mim



alguma coisa em mim
ainda vai longe

alguma coisa em mim
não vai dar pé

alguma coisa em mim
parece que foi ontem

alguma coisa em mim
quer acontecer

alguma coisa em mim
não é mais minha

alguma coisa em mim
saiu da linha

alguma coisa em mim
não disse a que veio

alguma coisa em mim
acerta em cheio

alguma coisa em mim
não tá na cara

alguma coisa em mim
não tá com nada

alguma coisa em mim
não dá desconto

alguma coisa em mim
eu nem te conto

alguma coisa em mim
não tem mais fim



Alice Ruiz

terça-feira, 27 de maio de 2014

Coisa tua




assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você

parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua


Alice Ruiz

domingo, 25 de maio de 2014

Leve



Leve a semente vai
Onde o vento leva

Gente pesa
Por mais que invente
Só vai onde pisa

Viver ou morrer
É o de menos

A vida inteira
Pode ser
Qualquer momento

Ser feliz ou não
Questão de talento


Alice Ruiz


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Assombros

 
 
 
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.






Affonso Romano de Sant'Anna
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...