sábado, 8 de julho de 2017

Benditos sejam os instantes e os milímetros






Benditos sejam os instantes, e os milímetros, e as sombras das pequenas coisas, ainda mais humildes do que elas! Os instantes (...) Os milímetros - que impressão de assombro e ousadia que a sua existência lado a lado e muito aproximada numa fita métrica me causa.
As vezes sofro e gozo com estas coisas. Tenho um orgulho tosco nisso.



Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Flores e sonhos



Em um vaso;
cabem flores, cabem cores;
cabe um tanto de jardim.
Cabe um  que de primavera,
porção de terra da Terra;
Cabe uma dose de sonho,
cabe um quinhão de mim.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Que lindo dia o que vemos!



Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos...
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos."
Fernando Pessoa

domingo, 23 de abril de 2017

Gostaria de encontrar-te.

 
Gostaria de encontrar-te.
Falar das cousas
que já estão perdidas.
Tuas mãos trementes
se desmanchariam
na sonoridade
dos meus ditos.
Faria de teus olhos
luz,
de tua boca
um eco.
Nos teus ouvidos
eu falaria de amigos.
Quem sabe se amarias escutar-me.
 
 
Hilda Hilst

domingo, 22 de janeiro de 2017

Bainha aberta



Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão


Astrid Cabral

sábado, 21 de janeiro de 2017

Viver corpos de outros

 
Viver corpos de outros
abrir-me em espreguiçar de ostras
ser solta
decifrar diálogos de golfinhos
prender calcinhas em pontas de estrelas
me virar pelo avesso
ser o reverso do poema
e assimalcançar você...
meu desejo, meu todo prazer!


Rosemary Barreto

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Cor-respondência



Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo. 
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme 
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta. 


Elisa Lucinda

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Lambido




Eu quase havia esquecido como é bom
Ser lambido, beijado, lambuzado
Por uma mulher bonita, manhosa, gostosa
Morena, loira, oriental, negra, ruiva
Não importa
Bastou me deixar levar
Sentir a língua molhada deslizar
Em torno das orelhas, ao redor do pescoço
De cima até embaixo da nuca
Arrepiar-me com o quente/frio da respiração
Lenta...
Pausada...
Um interminável gemido de prazer
Perdido nas entranhas do meu ser



Ricardo Icassatti Hermano

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sob o chuveiro amar



Sob o chuveiro amar, sabão e beijos, 
ou na banheira amar, de água vestidos, 
amor escorregante, foge, prende-se, 
torna a fugir, água nos olhos, bocas, 
dança, navegação, mergulho, chuva, 
essa espuma nos ventres, a brancura 
triangular do sexo -- é água, esperma, 
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes? 



Carlos Drummond Andrade




segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Portas entreabertas




Não deixe portas entreabertas
Escancare-as ou as bata de uma vez.
Porque por meias entradas
entram meias felicidades.



Flora Figueiredo

domingo, 13 de novembro de 2016

Peraltagens



Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.



Manoel de Barros

sábado, 12 de novembro de 2016

Viver sem explicações





Aprendi a viver sem explicações.
Ficamos com medo do que não podemos explicar
 e perdi esse medo.
Não é preciso explicar ou prever tudo.
Vivo bem nessa ignorância.



Mia Couto

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O corpo





O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência.
Nem uma culpa como nos faz crer a religião.
O corpo é uma festa.




Eduardo Galeano

domingo, 11 de setembro de 2016

Desejo de Abraço



Desejo de abraço
nunca passa.
Abraço é o nó mais delicado que há.
Um braço aqui e outro lá
e o coração se derrete,
o corpo afunda na mais
gigantesca felicidade.




Roseana Murray
in Poço dos Desejos, Ed. Moderna

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!







AH! QUEREM uma luz melhor que a do Sol! 
Querem prados mais verdes do que estes! 
Querem flores mais belas do que estas que vejo! 

A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. 

Mas, se acaso me descontentam, 

O que quero é um sol mais sol que o Sol, 
O que quero é prados mais prados que estes prados, 
O que quero é flores mais flores que estas flores - 

Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira! 







Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

Heterónimo de Fernando Pessoa 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A liberdade




A liberdade é um vinho de excelência.
Não faz sentido que não o compartilhes.
A sedução de ambos ajuda-nos a viver,
é o perfume da pele, a pele do vento, 
o segredo com que a flor atrai a abelha.
As árvores amam-se, e até mesmo as pedras
partilham o amor entre si.
O verde perde-se de amor pelo azul.



Joaquim Pessoa

domingo, 28 de agosto de 2016

Cabelo de mulher





É doce perder-se nos cabelos duma mulher. 
É como criança a brincar na lama.
Os lisos nada têm a esconder, são o que os olhos podem ver: mechas curvadas e brilhosas, um convite para o desfrute das mãos e dos dedos.

Os crespos – ah os crespos! – como são rebeldes! A possuidora do cabelo crespo pode compensar a rebeldia da cabeça com a sutileza de sua personalidade. Já vi por aí, mundo afora, mulheres de cabelos lisos e mentes crespas.

Cabelo de mulher... seu cheiro, sua cor, sua forma; que alquimia de prazer!
Há os negros como a noite. Quando cacheados impõem seu poder de fera indomável.

Há os loiros angelicais – instrumentos do pecado – e o ruivo diabólico, que faz os olhos firmarem um pacto com a beleza.
Tantos são os tons da natureza! Não tão maior que o desejo do amante de mergulhar nos cabelos da amada. 

Cabelo de mulher.... Curto, comprido, não importa.
Um fio somente jogado no lençol, esquecido no travesseiro, colado contra o peito, diz mais que qualquer bilhetinho deixado de propósito.

O amor passa, as bocas se deixam, os corpos se largam e um único fio é capaz de denunciar a solidão.





André Anacoreta
 in Éramos Eros

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Que Há





O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 
A sutileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço...





Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.
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