quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Desejo


Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora.


William Blake

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sopro misterioso e encantador - maternidade



Mãe não é uma mulher que ficou grávida e deu à luz. Mãe é um sopro misterioso que toca mulheres e homens e cria neles um jeito de dar colo, de espantar o medo, de cantar canções de ninar, de fazer dormir, de abraçar, de agradar, de não fazer cobranças nem pedir explicações, de repreender com severidade e ternura, de consolar em silêncio, de escutar, de respeitar, de conduzir sem emprurrar ou puxar. Ninguém é mãe sempre. Uma pessoa é mãe quando é tomada pelo sopro da maternidade. Pode ser mulher. Pode ser homem. E que o nome desse dia não fosse Dia das Mães, mas Dia da Maternidade. Porque assim eu poderia ver meu próprio rosto no vitral colorido da catedral.


Rubem Alves


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Meus livros... Meus contornos



Já faz muito que submeti minha biblioteca a um expurgo rigoroso - tanto assim que ela se encolheu e as estantes se encheram de espaços vazios. Desejo ter, como companheiros da minha solidão, somente aqueles livros que me permitem ver os contornos do meu rosto.




Jorge Luis Borges


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Tudo será permitido


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.








Thiago de Mello
 Estatuto do Homem - Artigo XII

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O amor, Meu amor


Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
Depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
Meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.


Mia Couto,
in "idades cidades divindades"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dai-me paciência



Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência.



Drummond
O Avesso das Coisas

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Emergência



Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.


Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado
.



Mario Quintana




terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Metade






Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...


Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.
orque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.


Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.


E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também




Oswaldo Montenegro


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Que saudade...


Na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.


Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.

Que saudade...


Mário Quintana

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ser, parecer


 Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.




Ser, parecer
Mia Couto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Alucinações poéticas




O poeta é um ser que lambe as palavras e depois se alucina

Manoel de Barros.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Versos de fim de ano - de Drummond


Você sabia que a lua
ainda não foi visitada?
Que há sempre uma lua nova
dentro da outra , e encantada?

É lá que vivem as graças
que nesta quadra do ano
a gente sonha e deseja
a todo o gênero humano.

Mas a lua, preguiçosa,
nem sempre atende à pedida?
A gente pede assim mesmo
até melhorar a vida.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Ano Novo nas palavras de Quintana



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...



Esperança
Mário Quintana


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.


Para Ti
Mia Couto

domingo, 18 de dezembro de 2011

Gotinhas de humor - El mamut chiquitito




Bueno niños ahora ya sabemos como se estinguieron los mamuts


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Identidade




 Preciso ser um outro
para ser eu mesmo


Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro


No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço




Mia Couto


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Para o Natal... Sigo as indicações da etiqueta




 Ho ho ho...100% Christmas



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A primeira vez que entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
E eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.



Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Nuvens...



3 formas de classificar as nuvens

Como:
1. Um bom motivo pra olhar mais vezes para o céu
2. Um ótimo lugar pra se colocar a cabeça
3. O melhor jeito de lembrar que todas as  tempestades desmancham
 
 
 
Silvana Tavano

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando formos os dois já bem velhinhos



Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!





J. G. de Araujo Jorge



domingo, 20 de novembro de 2011

Mar me quer




Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga...


Pois lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que se faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina.Eu tiro vantagens desses silêncios submarinos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar


Mia Couto



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Curiosidade Feminal - Luva porta-bijoux


Uma solução criativa e muito fofa.
  Esta charmosa luva porta-bijoux é simples e fácil de fazer,
 o passo a passo está no Doce Momento
 









quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Palavra do meu corpo




Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces




Nocturnamente
Mia Couto




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estrelas floridas


Se tu amas uma flor que se acha numa estrela,
é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.



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