domingo, 12 de abril de 2009

O menino que trouxe luz ao mundo da escuridão

Minha emocionada homenagem a Louis Braille (04/01/1809 - 06/01/1852), e às pessoas que utilizam o método de leitura e escrita desenvolvida por ele.

Um dia, cerca de dois séculos atrás, um menino estava na oficina do pai, na cidade de Coupvray, perto de Paris, Louis Braille tinha apenas três anos e gostava de ver o pai fazer selas e arreios. O pai lhe dava tiras de couro para brincar e ele fingia estar fazendo arreios também. Quando crescesse, queria ser igual ao pai.
O Sr. Braille trabalhava com afinco, cortando o couro com mão segura e olhar crítico. Levou uma peça de couro a luz e examinou com atenção para saber que faca usar. Largando a peça, atravessou a oficina para pegar a ferramenta adequada.
O pequeno Louis foi à mesa de trabalho, pegou a sovela e começou a bater numa tira de couro.
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Batia com força, tentando furar o couro duro, e seus dedinhos não tiveram firmeza para segurar a sovela. O instrumento pontiagudo escapou-lhe da mão e atingiu o olho esquerdo.
O Sr. Braille ouviu o grito e correu para o menino, mas era tarde demais, o mal estava feito. Horrorizados, os pais correram ao médico, na esperança de salvar a vista da criança, mas o ferimento era muito grave. A tragédia se completou quando a infecção atingiu o outro olho. Em pouco tempo, o menino não enxergava mais.
Naquele tempo as pessoas tratavam os cegos com negligência ou crueldade. Às vezes eram expulsos pela família e viviam de esmolas. As vezes eram contratados para trabalho pesado, como bestas de carga. Em alguns lugares, a cegueira era vista como obra do demônio ou como castigo divino.
As coisas eram diferentes na cidade de Coupvray, onde todos cuidavam do pequeno Louis. Ao ouvirem a batida da bengalinha, interrompiam o que estavam fazendo para ajuda-lo a atravessar a rua ou virar a esquina. Ajudaram a contar quantos passos levava para ir ao mercado, aos limites da cidade, à escola.
Passeando junto com o pai, Louis perguntava:
- De que cor está o céu hoje?
- Todo azul – dizia o pai – Todo azul.
Mas embora Louis se esforçasse para se lembrar do azul, as imagens da primeira infância gradualmente desapareceram, e ele não se lembrava mais da beleza das cores.
Aprendeu a ajudar o pai na oficina, trazendo ferramentas e peças de couro. Ia à escola com os amigos e todos se admiravam da facilidade com que aprendia e memorizava as lições. Gostava de conversar com os professores sobre história e geografia, e com o padre sobre as histórias da Bíblia.
Mas na verdade não estava feliz com os estudos, pois queria ler livros e escrever cartas como os colegas.
Um dia o professor falou com Louis sobre uma escola para cegos em Paris. Tinham livros especiais para cegos. Louis mal pôde acreditar. Implorou aos pais que o mandassem para essa escola, e o pároco ajudou a levantar o dinheiro para as despesas.
Assim, quando tinha dez anos Louis viajou com o pai para Paris e se matriculou no Instituto Nacional para Crianças Cegas. Logo ao chegar, levou aos professores a questão que ardia em sua mente.
Soube que a escola experimentava novas maneiras de ensinar aos cegos a ler. O fundador tinha mandado imprimir livros com letras grandes em relevo. Os estudantes cegos sentiam pelo tato as formas das letras e aprendiam as palavras e frases.
Não demorou, porém, que Louis descobrisse as limitações do método. As letras eram tão grandes que uma história curta enchia muitas páginas. Um simples livro chegava a pesar cem quilos! O processo de passar os dedos sobre as letras era demorado, e a leitura tomava muito tempo. E, como a confecção dos livros era muito cara, a escola só pôde imprimir alguns volumes. Em pouco tempo Louis tinha lido toda a biblioteca.
Apesar da decepção com a lerdeza do método, o menino de Coupvray estudava muito. Adorava música, e tornou-se ótimo estudante de piano e violoncelo. Passava as horas livres estudando no órgão da igreja, e tocaria nas cerimônias religiosas.
O amor a música aguçou seu desejo pela leitura. Além das letras, agora queria ler notas musicais. E queria aprender a escrever. Passava noites acordado pensando no problema. “Tem que haver um jeito”, pensava. “Se os cegos podem aprender como todo mundo, devem ser capazes de ler e escrever. Tenho que descobrir um jeito.”
Foi então que ouviu falar de um capitão do exército, chamado Charles Barbier, que havia desenvolvido um método para ler mensagens no escuro. A “escrita noturna” consistia em conjuntos de pontos e traços em relevo no papel; correndo os dedos sobre os códigos, os soldados podiam ler sem precisar de luz.
Louis viu imediatamente as possibilidades dessa idéia. Se um soldado podia ler e escrever no escuro, os cegos também podiam.
Procurou o capitão Barbier, que demonstrou o sistema com a maior boa vontade. Fez uma série de furinhos numa folha de papel, com um furador muito semelhante ao que tinha tirado a vista de Louis. Virando a folha, mostrou os pequenos relevos dos furinhos no outro lado do papel e explicou como as combinações de pontos e traços formavam palavras e frases.
Louis voltou ao instituto e começou a trabalhar. Noite após noite, mês após mês, trabalhou no sistema de Barbier, fazendo adaptações e aperfeiçoamentos. Sabia que a idéia era fundamental, mas o código de traços e pontos precisava ser mais trabalhado para ter real utilidade para os cegos.
Como muitas idéias e invenções, a de Louis foi encarada com suspeita. Os diretores do instituto não aprovaram a tentativa de mudança. Tinham gastado uma pequena fortuna na impressão de livros com letras em relevo e não viam motivo para trocar por um sistema baseado em pontinhos. Argumentavam que uma escrita específica para cegos ia segrega-los ainda mais da sociedade. Não aprovavam os esforços de Louis.
Quando fez dezessete anos, Louis tornou-se professor do instituto. De dia ensinava a ler pelo método das letras grandes, e à noite continuava a aperfeiçoar o novo sistema. Trabalhava longas horas, testando novos padrões, procurando as melhores combinações, e as vezes adormecia sobre os furadores e papéis. À exceção da música, dedicava todas as horas livres à pesquisa, confiante no sucesso.
Em 1829, aos vinte anos de idade, Louis chegou a um alfabeto legível com combinações variadas de um a seis pontos. O método Braille estava pronto. Projetou um furador menor, mais adequado à função e, algum tempo depois era capaz de escrever tão rápido quanto falava. O sistema permitia também ler e escrever música.
A noticia correu, e alguns alunos iam secretamente ao quarto de Louis à noite para aprender o novo método. Louis passou a copiar livros – Shakespeare e outros clássicos -, e logo mais e mais cegos tomavam conhecimento do método. Louis começou a receber cartas de todas as partes do mundo pedindo informações sobre a invenção.
No entanto, infelizmente, muitos não reconheciam a importância do sistema de Braille. Alguns admitiam seu valor, mas não se interessavam. Outros, por inveja, se ressentiam do novo método. Alguns professores do instituto tentaram proibir o ensino dos pontos de Louis Braille.
Mas ele continuava a aprimorar e a divulgar sua invenção, esperando que algum dia os cegos do mundo inteiro aprendessem a ler e escrever como ele. Transcrevia novos livros e ensinava a leitura a quantos se interessassem. Falava sobre o método a quem quisesse ouvir, demonstrava quantas vezes fosse preciso, tentando atrair o interesse do público.
Ao fim de tantos dias e noites de trabalho incessante, sua saúde começou a dar sinais de fraqueza, e ele temia que as chances de os cegos aprenderem a escrever pelo seu método morresse com ele.
Entretanto, a idéia terminou por encontrar aceitação. No fim da vida de Louis, diversas cidades da Europa já reconheciam a importância do método Braille e cada vez maior número de cegos adotava os pontinhos em relevo. Era a luz que despontava. Semanas antes de morrer, no leito do hospital, Louis disse a um amigo:
"Oh, mistério insondável dos corações humanos! Tenho certeza de que minha missão na terra terminou."
Morreu em 1852, dois dias depois de completar 43 anos.
Nos dias seguintes à morte de Braille, o método se espalhou por vários países e finalmente se tornou aceito como método oficial de leitura e escrita para aqueles que não vêem. Assim, os livros puderam fazer parte de sua vida graças a um menino que dedicou sua vida a enriquecer a dos cegos.




BENNETT, William J. O livro das virtudes II: O compasso moral. 13ª edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. (pág. 389 – 393)
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Um comentário:

Elayne disse...

Sou pedagoga e tive o privilégio de trabalhar no atendimento às pessoas com Deficiência Visual (cegos e baixa visão) e com o treinamento de professores no Método Braille. Foi um dos períodos mais significativos para mim, cresci como profissional e como pessoa, impossível não emocionar-me com a história da descoberta do método, compartilho-a com vocês.
Abraços a todos

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