terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando formos os dois já bem velhinhos



Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!





J. G. de Araujo Jorge



domingo, 20 de novembro de 2011

Mar me quer




Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga...


Pois lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que se faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina.Eu tiro vantagens desses silêncios submarinos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar


Mia Couto



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Palavra do meu corpo




Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces




Nocturnamente
Mia Couto




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estrelas floridas


Se tu amas uma flor que se acha numa estrela,
é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A adiada enchente



Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.



Mia Couto

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como o perfume...


Nós somos como o perfume
da flor que não tinha vindo:
esperança do silêncio
quando o mundo está dormindo.

Pareceu que houve o perfume...
E a flor, sem vir se acabou
Oh! abelha imaginativa!
que o desejo inventou...



Cantiga
Cecília Meireles

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Receita para dias de chuva

Brasília está chuvosa... propícia para nos aventurarmos em novas receitas.



dia de chuva é para viajar
na neblina e no vento
para dentro para dentro.
um livro fechado espera
que se abram as suas portas
com as chaves do pensamento.



Roseana Murray

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ainda ontem pensava que não era




Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trêmulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"



Khalil Gibran


domingo, 6 de novembro de 2011

Meus caminhos... Minhas nuvens






Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando...


Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros...
com os meus caminhos...
com as minhas nuvens...




O Anjo da Escada
Mario Quintana






terça-feira, 1 de novembro de 2011

Uma necessidade e um êxtase



Ide pois aos vossos campos e pomares,
e lá aprendereis que o prazer da abelha
é de sugar o mel da flor,
mas que o prazer da flor é de entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha,
uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor
uma abelha é mensageira do amor.

E para ambas, a abelha e a flor,
dar e receber o prazer
é uma necessidade e um êxtase



A abelha e a flor
KAHLIL GIBRAN




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